TIRANDO AS MEDIDAS
Ralyanara – 2024

No entrelaçar dos fios de algodão, o tecido se transforma em pele. Cada amarração do fio delineia os limites do corpo, moldando uma essência puritana do que é ser mulher. O corpo, apertado, não é apenas matéria, mas espaço de significados onde cada dobra tem sua própria história e cada tensão enovela um desejo oculto. É no abraço apertado do algodão que a pele encontra/esconde seu lugar, sua narrativa. As medidas do corpo, reveladas pela linha, é um manifesto silencioso.

As imagens mostram um corpo nu envolvido, apertadamente, por fios de algodão tingido com pigmento preto – material este usualmente empregado no ofício das tecedeiras, costureiras e bordadeiras. Tais expressões também compõe a trajetória de vida de Ralyanara Freire, autora da obra. A linha de algodão apresenta um contraste com a pele-tecido e com os pelos pubianos e axilares. A pele-tecido, com gordura abdominal evidente, é trazida em detalhes nas imagens e tecem críticas aos padrões de corpos, à magreza, à racialização e ao feminino universal. Com a compreensão de que a fotoperformance se materializada em imagem, o tecido-pele ocupa toda a área da fotografada – de maneira que a própria fotografia também se transforma em corpo, em tecido, em pele. A fotoperformance foi desenvolvida em 2022, quando Ralyanara passou por uma cirurgia bariátrica. Impactada com a perda de gordura e músculos, e pela ausência de reconhecimento ao se olhar no espelho, ela/elu produziu as imagens que, mais tarde, em 2024, foram pensadas enquanto objeto de arte.

Tirando as Medidas. 2024.
Fotoperformance impressa sobre papel Hahnemuhle, 200g/m². Políptico. 30×42 cada.

Festival FotoDoc, online, 2024.

Museu Victor Meirelles, Florianópolis, 2025.
Museu Antropológico, UFG, Goiânia, 2025.
Galeria Aberta, IFG, Goiás, 2025.